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Uma Breve Apresentação

A ciência é a procura da verdade; não é um jogo no qual uma pessoa tenta bater seus oponentes, prejudicar outras pessoas.
Linus C. Pauling


Há uma profunda diferença entre o discurso religioso e o discurso científico. Aquele supõe uma revelação, que lhe confere um valor de verdade. Explica a totalidade das coisas: como o mundo foi criado, por que o mal existe, qual é o sentido da vida, o que acontecerá após a morte, etc. Proclama o fim da história e oferece ao ser humano parâmetros para compreender a história por meio de um sentido meta-histórico. Apresenta um programa de ação aos homens, instaurando um dever fazer: aqueles que agirem conforme esse dever serão recompensados, quem não o fizer será punido. É um discurso a-histórico, pois enuncia verdades, que pretende válidas para todos os tempos e todos os lugares. Por isso, é um discurso da certeza, em que não há lugar para as contradições e os questionamentos. Adere-se a ele pela crença. Já o discurso científico não é fruto da revelação, mas da observação e descrição dos fatos do mundo. No entanto, o pesquisador não age diretamente sobre os fatos, mas sua ação de observar, de explicar, de descrever é realizada pela mediação de pressupostos teóricos, o que implica que ele se aproxima da realidade guiado por uma orientação teórica prévia. Por isso, os mesmos fatos podem ser descritos ou explicados de maneiras diferentes, uma vez que é normal que, sendo a ciência uma construção humana, nela convivam diferentes quadros teóricos. A pluralidade teórica não é só normal, é uma necessidade intrínseca do discurso científico, pois, como o cientista não possui a onisciência atribuída à divindade, a ciência realiza aproximações parciais da realidade, fazendo nela recortes (os objetos teóricos), sobre os quais se formulam hipóteses explicativas. Isso significa que cada recorte feito pela ciência não explica a totalidade dos fenômenos do mundo. Por outro lado, os recortes realizados na realidade e as hipóteses explicativas não são coincidentes, porque a ciência é uma prática histórica e, por isso, é marcada pela diferença, já que distintas visões de mundo estão na base da construção dos sistemas teóricos. Isso não quer dizer, porém, que o discurso científico esteja apenas fundado em crenças e valores, pois as hipóteses explicativas nele formuladas devem ser confrontadas com o real, o que dá uma relativa objetividade à ciência, obrigando a um permanente questionamento de suas bases teóricas em sua dimensão empírica ou filosófica. Uma vez que é inerente à ciência a diversidade teórica, o fazer científico implica necessariamente a polêmica, o debate, a controvérsia, o questionamento, a dúvida, a crítica. Por isso, em ciência, não existem dogmas, não há exclusões, não existem verdades a que se adere pela crença, não há temas proibidos. Evidentemente, o fazer científico é regido pela ética, mas por uma ética que não se funda num programa de ação, como o apresentado pelo discurso religioso, mas se baseia no princípio da busca da verdade, o que significa que a atividade científica não pode estar a serviço da defesa de interesses comerciais, religiosos, políticos, etc., e na promoção do bem-estar, da igualdade e da liberdade dos seres humanos, o que implica, entre outras coisas, a preservação do meio ambiente e o respeito aos sujeitos da pesquisa.
É preocupante que hoje muitos acadêmicos tenham uma visão religiosa da ciência e não uma visão científica dela. Uma visão religiosa da ciência é aquela que apresenta um ponto de vista teórico como "a" verdade, que explica a tudo o que existe na realidade. Os que têm essa visão da ciência são dogmáticos e, por conseguinte, não aceitam a crítica, o questionamento, a dúvida. Tomam o que disseram alguns autores como a verdade revelada, o que implica que eles não podem ser postos em dúvida. Seus seguidores não passam de escoliastas. Essa visão tem profundas implicações na vida acadêmica, pois significa a exclusão do pensamento divergente.
Uma tarefa de todos os orientadores da Pós-graduação hoje é transmitir aos pesquisadores que estão formando o que aqui chamei uma visão científica da ciência, que requer uma atitude não dogmática, o que pressupõe a participação aberta no confronto de idéias, o que implica repensar e refazer as descrições dos fatos e as hipóteses explicativas. Para isso, é preciso que os trabalhos venham a público e sejam submetidos à leitura atenta de outros investigadores. É nesse espírito que se insere a iniciativa do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul de criar a Revista Guavira Letras. Embora ela aceite trabalhos de pesquisadores experimentados, tem como um de seus objetivos a publicação de trabalhos de pós-graduandos, para que eles entrem no circuito do debate acadêmico. Esses trabalhos serão submetidos a um conselho editorial, que os analisará com todo o rigor. Dessa forma, a revista que ora vem a público terá um importante papel pedagógico, pois estará contribuindo para que para que se formem verdadeiros cientistas, ou seja, pessoas que não trabalham maneira impressionista ou aleatória, mas que descrevem e explicam os fatos com base num sistema teórico, cujos métodos, fundamentos empíricos e pressupostos filosóficos conhecem bem, e, acima de tudo, não têm uma posição dogmática e irracionalista, que significa a própria negação da ciência.

 

José Luiz Fiorin
Universidade de São Paulo
16 de maio de 2005.

 

 

 

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